02 junho, 2011

Estado de consciência

Pedro Lomba, Público

Não faríamos justiça aos anos de Sócrates, nem compreenderíamos bem o que nos fica, se os resumíssemos a uma experiência de mau governo, ou se pensássemos só no desastre económico e social que temos pela frente. Tudo isso é grave e mais que suficiente para o afastarmos do cargo que ele ainda ocupa. Mas Sócrates não foi o primeiro, nem será o último, a cometer erros que agravaram a crise, e se ele é execrado (verdade que o mais execrado), outros foram também execrados.

O que pretendo dizer é que nestes seis anos com Sócrates no poder houve uma dimensão banal, visto que podemos esperar que os políticos encenem e se encenem e podemos esperar que usem todas as artimanhas retóricas. Essa é a banalidade que em última análise caracteriza o político nas democracias, transformando-os em criaturas maquinais que repetem guiões pré-preparados.

Mas não é a banalidade que resume estes anos. O socratismo (uso a palavra por conveniência) precisa de ser compreendido como outra coisa mais sofisticada e insidiosa que sucedeu na política portuguesa. É usual falar-se de "propaganda", "marketing", "culto da imagem", "mentira" e é verdade que os governos de Sócrates estiveram cheios disso. Podemos recorrer a palavras que foram repetidamente usadas por comentadores e políticos, mas que pecam por serem também elas imprecisas, metafóricas, ou poderem ser vistas como formas de propaganda contra a propaganda ("asfixia", "claustrofobia", "envenenamento").

O ponto principal, no entanto, reside no modo como Sócrates se colocou no nosso espaço público, essa frágil arena que serve de alicerce à democracia. Nenhum primeiro-ministro na nossa História democrática pôs em prática, com a cumplicidade e serviço de diferentes interessados, uma autêntica operação de apropriação e canibalização da esfera pública como fez José Sócrates.

Nunca se viu Sócrates esclarecer por esclarecer e informar por informar - e não faltaram ocasiões de alarme para tal. Vi-o sempre, em 2009 e agora, empenhado na codificação da mensagem, criando por métodos de propaganda e contra-informação um mundo ficcional e paralelo, para que os eleitores digerissem o que ele propunha, porque, não conhecendo eles a exacta dimensão dos factos e não sabendo mais separar entre a verdade e a mentira, restar-lhes-ia conformarem-se e aceitarem.

Como Pacheco Pereira uma vez escreveu, este é um jogo que Sócrates sabe jogar melhor do que os outros. Mas é preciso lembrar que também foi ele que encontrou as condições ideais para o jogar. O nosso sistema político foi pesadamente condicionado nos últimos 20 anos pelas televisões privadas, pela fragilidade financeira dos media e pelo crescimento de um poder económico entalado entre o público e o privado que prospera à custa das relações de favor e influência que obtém junto do poder político.

Essa correlação de forças tornou-se nesta década mais perigosa e instável. Foi ela que permitiu a Sócrates estabelecer alianças com outros poderes: o económico, financeiro e mediático; colocar os seus apaniguados nos bancos e nos media; agir obsessivo e vingativo contra os adversários; usar até não poder mais as agências de comunicação e os recursos do Estado.

A crise que ele nos deixa não está apenas nos números da economia. É uma crise do nosso reduzido estado de consciência. Sócrates venceu, porque nos pôs a pensar como ele, semiconscientes, semiadormecidos, ouvindo e falando maquinalmente. É o que nos fez seguir esta campanha como analistas de percepções e de gaffes, obcecados com a eficácia, como se fôssemos o júri de um reality show de marketing político.

De certa forma, o problema nunca foi Sócrates, mas saber que Sócrates explorou as brechas da nossa democracia, que o napalm está aí para quem o souber usar. Deixa-nos num tal desalento ético, numa tal fractura, que a reconstrução será mais difícil. Mesmo sem Sócrates, porque os seus vestígios não irão desaparecer tão cedo.

31 maio, 2011

A nódoa


José Vítor Malheiros, Público

Os socialistas do PS só vão aparecer quando tiverem a certeza de que Sócrates já não respira


1. Espero que Mário Soares tenha oportunidade de participar noutra campanha eleitoral, noutro ciclo de vida do seu partido. Isto porque deixar como testamento político um apelo ao voto em José Sócrates seria um final particularmente triste para um homem com a sua carreira e com a sua visão política. Seria a prova que na política a má moeda expulsa sempre a boa moeda, em Portugal ou na Europa, como os tempos parecem insistir em nos provar.

É verdade que aquilo que Soares encontrou para dizer de positivo a propósito de Sócrates foi prudentemente escasso ("ganhou uma experiência excepcional, tem amigos na Europa e conhece toda a gente") e que a sustentação do seu apelo ao voto no PS foi "apenas" a sua fidelidade "ao Partido Socialista que ajudou a criar", mas a intervenção do líder histórico do PS no Palácio de Cristal serviu para mostrar de que forma todo o partido - com raríssimas excepções - está refém de Sócrates. Será porque acham que Sócrates é de facto o melhor líder possível para o Governo de Portugal? Porque acreditam de facto que Sócrates defenderá o Estado social? Porque acreditam que Sócrates tem uma visão (seja qual for) para o país capaz de o tirar do atoleiro? Porque acham que o prestígio internacional de Sócrates lhe permitirá renegociar os empréstimos em melhores condições? Porque acreditam na sua competência técnica? Na sua honestidade? Não. As razões são outras. Antes de mais, porque acham que Sócrates é o único líder socialista que pode ganhar estas eleições e o que o PS quer neste momento é ganhar as eleições (aconteça o que acontecer ao país). Depois, porque receiam o conhecido carácter vingativo do chefe... que ainda tem os cordelinhos do partido na mão. Só depois de Sócrates cair aparecerão os seus oposicionistas. Aparecerão em bando, quando tiverem a certeza de que já não respira. As razões do apoio dos socialistas do PS a Sócrates são, assim, as piores possíveis: ou o medo ou o sectarismo partidário. E a razão invocada no apelo ao voto é a única possível: o PSD é ainda pior do que nós.

2. Não percebo o que pode levar um dirigente socialista a defender o seu apoio a José Sócrates com base no argumento de que ele "é o líder do meu partido". Não perceberão estas pessoas, de quem se esperaria alguma cultura política, que esse argumento, que os estalinistas utilizaram de forma extensiva durante décadas, se encontra na raiz dos maiores crimes políticos jamais perpetrados? Não perceberão que esse argumento, sectário por excelência, não é um argumento? Não percebem que esse falso argumento justificaria todos os crimes? Que ele é amoral? Até que ponto irão continuar a apoiar Sócrates? Vão continuar a apoiá-lo faça o que fizer? Se um dia, em vez de disparar grosserias no Parlamento, como se acostumou a fazer, pegar numa caçadeira e começar a disparar umas cartuchadas a eito no meio da multidão dirão que quem o criticar está apenas a servir os interesses do PSD, a atacar o Estado social?

Achará o PS que os benefícios da acção governativa do PS (também os houve) compensam e devem fazer esquecer as aldrabices, as manipulações, as negociatas? Quererá o PS adoptar oficialmente a atitude dos autarcas corruptos que "roubam mas fazem"? Serão os ajustes directos aos amigos, as PPP sem controlo e a sonegação de informação uma espécie de "imposto revolucionário" que o povo deve pagar directamente para o bolso de alguns beneficiários em contrapartida de ainda termos o Serviço Nacional de Saúde? Acha o PS que as benesses que concede ao país devem ter como paga a sua absoluta impunidade? Defenderá o PS a monarquia absoluta?

Não sei se o PS percebe a nódoa que o consulado socratista constitui para si, a desvergonha que representa e que transformou em bandeira, o descrédito que trouxe para a política e aos políticos, o autêntico escarro que significa na cara do eleitorado em geral e dos socialistas em particular. Parece que não.

26 maio, 2011

Luta de classes

Pedro Lomba. Público

Há tanto contra José Sócrates e o seu Governo, contra os abusos e ocultações, a sua má gestão dos dinheiros públicos, a sua reincidência na mentira, que o mais difícil é escolher. Ontem foi o "défice oculto": 200 milhões de despesa fora da execução orçamental para iludir as contas; hoje é a confirmação de que o Ministério das Finanças recorreu mesmo ao Fundo da Segurança Social para vender dívida em Abril passado, apesar de o despacho do ministro que autorizou o negócio só ter sido publicado esta segunda-feira e apesar do desmentido oficial que foi feito na altura.

Eles continuarão a dizer que o país apanhou com a pior crise internacional dos últimos 80 anos, mas não explicam por que é que, se a crise chegou a todos, só nós e a Grécia é que estamos em recessão. Não se pode dizer que o caso contra este Governo não esteja bem provido de factos.

Mas nesta campanha Sócrates tem repetido desde o início, por sistema, por necessidade táctica, outro argumento: o "PS é o grande partido do povo". Tem dito e redito que os outros querem uma "educação para ricos e outra para pobres", "transportes para ricos e transportes para pobres"; tem insistido que os outros querem atirar os mais pobres para fora da saúde pública. Num comício em Elvas, Sócrates acusou Passos Coelho de usar um "preconceito de classe social" contra as Novas Oportunidades.

E, história amplamente comentada, para mostrar que os mais pobres estão mesmo atados à campanha socialista não hesitou em usar trabalhadores imigrantes indianos e paquistaneses, que mal falam português e nem sabiam quem ele era, como adereços de campanha a troco de lanches e dos papéis.

Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes. Depois do Sócrates sofisticado que jurava gerir o país como um empresário, negociando nas altas esferas, chegou-nos o Sócrates classista, o homem do povo, o homem dos simples.

Conheço muitos socialistas para quem esse "povo", real ou mitificado, não é uma simples fantasia nem uma arma política. Tal como não é a redução das desigualdades nem o Estado social. São pessoas, lá está, com convicções, um bem raro nos tempos que correm.

Mas ouvir Sócrates e o seu PS saltearem o medo dos pobres de sempre e dos novos pobres, ouvi-los falar em "povo" e em "classes sociais", é mais do que simplesmente trágico. É obsceno.

E nem sequer estou a falar do fim dos abonos de família, bolsas e prestações sociais. Seria demasiado óbvio. O que é preciso dizer é outra coisa de mais profundo. Sócrates e o seu PS de betinhos e instalados cavaram uma tal cratera de interesses, um tal vaivém promíscuo entre o Estado e certos grupos económicos, que de "povo", de atenção às desigualdades e até de esquerda ou de direita estes puros não têm nada.

Quando os vejo encher a boca com o "povo" e os "pobres, só me lembro dos amigos socialistas que literalmente enriqueceram nestes últimos 15 anos sob o alto patrocínio do poder do Estado. Lembro-me dos Ruis Pedros, Varas, administradores de empresas públicas, banqueiros, construtoras civis. Lembro-me de negociatas como o terminal dos contentores de Alcântara, das adjudicações directas, das Scut, das leis cozinhadas em gabinetes para servirem uns quantos destinatários. Nos anos finais do cavaquismo também havia disso. Esta esquerda dos interesses é igualzinha à direita dos interesses. Suga o país, o Estado, os que trabalham. E Sócrates assistiu a tudo, permitiu tudo, porque é feito dessa mesma massa. Luta de classes? Tenham vergonha.


03 maio, 2011

Ainda há coisas que se podem fazer


José Vítor Malheiros, Público

A ideia populista de que os ricos devem ser penalizados pelo uso do SNS é o primeiro passo para a sua destruição.

Não vivemos um normal tempo de crise, onde sabemos que a normalidade irá acabar por regressar, como o bom tempo depois de uma tempestade. Esta não é uma crise de onde sabemos que sairemos mais fortes, porque teremos sobrevivido e porque teremos aprendido a não repetir os últimos erros. Esta é uma crise onde não só não sabemos para onde vamos, como também não sabemos para onde poderíamos ir. Esta é uma crise da qual ninguém sabe como sairemos, nem sequer se sairemos dela. Esta não é a crise que se vai transformar na finest hour da União Europeia, como desejávamos, mas aquela onde os agiotas reunidos em Londres e em Frankfurt tentam proceder à última fase da lobotomia da civilização, apagando o Estado Social dos programas eleitorais de todos os partidos. Uma questão de realismo, dizem. "Vocês não têm dinheiro para isso", sussuram-nos ao ouvido. "Nós faremos um melhor serviço a gerir os vossos hospitais, as vossas reformas, os vossos exércitos, as vossas prisões, os vossos partidos".

Esta crise não é uma batalha perdida, mas uma guerra perdida, onde a única possibilidade é reagrupar as forças no exílio, organizar a resistência clandestina e prepararmo-nos para um longo combate.

Esta crise é o tempo de todos os charlatães e de todas as mentiras, porque haverá sempre algo mais a extorquir dos contribuintes. Que se deixarão expoliar voluntariamente. Porque alguém lhes disse que isso era inevitável. Porque alguém lhes disse que a política era um luxo impossível, que só a economia deve tomar decisões sobre as nossas vidas, que só a desumanidade garante a eficiência e que a desigualdade é a única justiça e a igualdade uma injustiça. Orwell ficaria boquiaberto com a sua presciência.

Mas neste momento em que não sabemos o que pensar, o que propor, há ainda coisas fundamentais que podemos fazer. Como defender o Serviço Nacional de Saúde com unhas e dentes, por exemplo, sem aceitar os argumentos das empresas (e dos seus partidos), que acham que este é um negócio tão ruinoso para o Estado... que preferem ser elas a fornecê-lo.

Numa entrevista recente ao PÚBLICO, o líder social-democrata Miguel Relvas defendeu que "a filha do homem mais rico de Portugal não pode pagar nove euros por uma consulta num hospital público, pagando o mesmo que a filha de um desempregado". "Não é justo", dizia.

Vale a pena reflectir na proposta.

Antes de mais, o sistema é justo porque a família mais rica de Portugal já paga muito mais do que a família do desempregado para o SNS: paga através dos seus impostos (ou pagaria, se todos os partidos quisessem). Por outro lado, se uma taxa moderadora progressiva desincentivar os mais ricos a aceder ao SNS e a escolher serviços privados, o SNS transformar-se-á no "serviço dos pobres", abrindo a porta a todos os ataques à sua manutenção e melhoria (menos utilizadores, menor pressão social para a sua melhoria, utilizadores mais facilmente silenciados, etc.). De facto, se se pretende um serviço de saúde de qualidade, é fundamental que ele sirva todos em condições de igualdade, ricos e pobres, sem distinção. Só desta forma toda a sociedade se empenhará, colectivamente, na sua defesa.

A ideia populista (aparentemente socialista, mas de facto profundamente reaccionária) de que os ricos devem ser penalizados pelo seu uso dos serviços públicos é o primeiro passo para a destruição desses serviços públicos e para reforçar uma saúde (uma educação, uma...) a duas velocidades: uma privada, de qualidade; uma pública, de subsistência. Os ricos devem ser tratados exactamente como os pobres - nem pior nem melhor - e só assim a defesa do serviço público será uma preocupação de todos. Ao contrário do que pretendem alguns, só a igualdade no acesso promove a qualidade.

28 abril, 2011

Sócrates denunciado por eventual administração danosa por dar tolerância de ponto


O advogado Alfredo Castanheira Neves apresentou na terça-feira ao Ministério Público uma denúncia visando o primeiro-ministro, por eventual administração danosa, resultante da tolerância de ponto concedida à função pública na tarde de quinta-feira santa.


16 abril, 2011

Os Lusíadas em nova versão


I

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo aquilo que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se de quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas.
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que'ainda andarem à solta, só me espanta.

IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

12 abril, 2011

Puseram alguma coisa na água?


José Vítor Malheiros, Público

O PS é uma família e não renega os seus filhos. Mesmo que Sócrates destrua o país, o partido vai continuar a gostar dele.

Apesar da imensa cobertura mediática do congresso do PS deste fim-de-semana, os media não contaram a história essencial. Refiro-me à mudança de nome do PS, que abandona a designação de Partido Socialista e passa agora a adoptar oficialmente a designação pela qual já era informalmente conhecido: Partido de Sócrates. A alteração tem o inconveniente de manter a mesma sigla, mas a designação alternativa Partido do Zé, defendida com o habitual brilho intelectual por António Vitorino, não colheu o apoio dos congressistas. O que importa é que, depois deste congresso, ficou mais clara a identidade do PS e mais bem definida a sua visão para o país.

O congresso teve momentos muito diversos e oscilou entre o ambiente de seita acossada cerrando fileiras ("Eles estão todos contra nós, mas "há-des" ver") e um tom bajulatório de exaltação caudilhista com longa tradição política. E houve um perfume retro muito bem conseguido pela produção. Só se lamenta que o Don"t cry for me Portugal que tinha sido especialmente gravado por Madonna não tenha chegado a ser exibido.

Sintomática do ambiente foi a intervenção de Jaime Gama, que, apesar de, na substância, ter posto os pontos nos ii quanto às responsabilidades do Governo e do primeiro-ministro na negociação do empréstimo à UE e FMI (Gama tem alguma sensatez), seguiu na forma o mesmo tom laudatório do líder ("os ombros de José Sócrates" devem aceitar mais esta "dificuldade", disse Gama). Podia ver-se a cruz a ser arrastada pela Via-Sacra.

Já sabíamos que no PS de Sócrates as críticas e as dissidências eram malquistas e se pagavam caro. Agora sabemos que o unanimismo foi assumido pelo partido como um valor nuclear. A justificação é o acosso da esquerda e da direita, mas os estalinistas também não tinham falta de argumentos para defender o encobrimento e a participação nos crimes do regime. Não há muitas ideias políticas mais suspeitas do que este "sigamos com uma obediência cega e num silêncio servil o nosso líder autocrático porque estamos cercados", mas foi esse o moto que o PS decidiu escolher. Tal como preferiu o deleite autocomplacente (Ana Gomes foi uma das raras excepções) ao mínimo olhar crítico sobre a realidade.

É verdade que houve intervenções que abordaram a crise política, financeira e social portuguesa, tendo apresentado aos congressistas presentes um leque de propostas estratégicas para enfrentar os problemas da nação. Só que o leque foi desde um "Zé, pá... eles querem porrada mas eles mal sabem como nós somos danados para a porrada... e então tu, caraças, pá, Zé!" até "Tu, Zé, nem sabes o orgulho que eu, caraças, tenho de estar ao teu lado, pá". Sócrates, como não podia deixar de ser, emocionou-se.

Pode dizer-se que tudo isto é compreensível. Que isto mais não é que lealdade, camaradagem, amizade, valores importantes (uma das músicas de fundo do vídeo exibido foi That"s what friends are for), mas o que o PS parece não perceber é que há valores que um partido tem de prezar mais que esses, como a honestidade, a justiça ou o bem-estar dos portugueses. Que os amigos de Sócrates lhe dêem palmadas nas costas é normal. Que o partido o reeleja para o colocar de novo à frente do Governo é irresponsável. E que o PS se compraza em ser o partido dos amigos é preocupante. Não é que os outros não sejam, mas têm um bocadito de vergonha. Ninguém pensou que seria melhor o PS apresentar-se como o partido das ideias para Portugal do que como o partido da lealdade ao chefe?

Uma das explicações para este congresso alegremente mentecapto e de glorificação do líder é, simplesmente, que alguém tenha posto alguma coisa na água. Outra explicação possível é que o PS seja só isto.

Homens da luta na moção de recandidatura de José Sócrates




10 abril, 2011

A sala de aula está fechada


Daniel Sampaio, Pública 10/4/2011


"Em Portugal, a sala de aula está fechada", aqui está uma importante constatação de Andreas Schleicher, coordenador do Programme for International Assessment (PISA), o maior estudo internacional sobre as competências dos alunos de 15 anos. Os dados de 2010 revelaram, como foi noticiado, algumas melhorias nos estudantes portugueses.

Na entrevista a um semanário, Schleicher considera importante continuar o progresso e salienta como é decisivo "investir em recursos capazes de ajudar os alunos com dificuldades (...), porque se pode ter sucesso com todas as crianças". Como estratégia possível, coloca a hipótese da retirada momentânea do aluno da sala de aula, com posterior reintegração após melhoria. Sobre a avaliação, Schleicher alerta para o facto de surgir associada à progressão da carreira, em vez de se ligar ao desenvolvimento profissional, ou seja, aos pontos fortes e fracos dos professores, no seu desempenho em diversos contextos. E conclui com a afirmação de que não sabemos se um professor está a fazer um excelente ou péssimo trabalho, porque "a sala de aula está fechada".

Esta entrevista deveria ser afixada nas escolas e merecer toda a atenção dos responsáveis educativos. Infelizmente, nada disso se passa. O mistério da sala de aula é uma realidade: mesmo em escolas bem organizadas, os factores individuais de alunos e professores podem impedir o normal funcionamento da classe, como acontece em casos de falta de autoridade dos docentes e de indisciplina dos jovens. Os alunos com problemas de aprendizagem são enviados para aulas de apoio sem uma verificação criteriosa das suas insuficiências. Nunca são estudados os factores de grupo que podem estar a impedir o progresso, nem são analisadas as dificuldades dos professores em transformar a sala de aula num grupo de trabalho cooperativo: os docentes descrevem as turmas como "boas" ou "más", esquecendo a heterogeneidade do conjunto e as diversas etapas de desenvolvimento em que se encontram os alunos. A indisciplina é, em muitos casos, impressionante: contou-me uma professora que só conseguia "sumariar" - estranho verbo para quem ensinava Português - porque as aulas eram passadas a mandar sentar os alunos e a gritar para que estivessem calados. Outra colega tinha abandonado a sala de aula porque os alunos, "transformados" em gatos, "miavam" a compasso, enquanto dois deles gritavam que o director de turma era um "ganda boi". E a escola prosseguia o seu quotidiano, sem que alguém se preocupasse com a sala de aula, que permanecia "fechada".

Tudo isto se passa num país em crise, em vésperas de eleições. Num território em que um partido procura culpar o outro e o Presidente da República não foi, até agora, capaz de assegurar um acordo pré-eleitoral para um governo estável. A Assembleia da República, depois de impedir a diminuição do número de disciplinas - uma medida saudável, embora mal justificada -, tomou a decisão de parar o sistema de avaliação dos professores, obtido por acordo com os sindicatos e em vigor neste ano lectivo. O bom senso aconselharia uma revisão cuidada do que se obteve e do que não se conseguiu, de modo a que o novo governo e no próximo ano lectivo fizesse as alterações necessárias ao sistema em vigor. Prevaleceu a pressa e o espectáculo político: a verdade é que alguns partidos ganharam e a escola perdeu tempo.

A sala de aula ficará aberta quando for avaliada por alguém exterior à escola. A escola problemática melhorará quando abrir as portas ao trabalho na comunidade e for dirigida por um director competente: alguém cujo curriculum ateste capacidade de melhorar os resultados e conseguir satisfação de docentes e discentes noutro estabelecimento de ensino definido como difícil.


Neste link há um texto de uma conferência que Schleicher deu no Conselho Nacional de Educação:

http://www.cnedu.pt/images/andreas.pdf



09 abril, 2011

Jardim, a grande fraude


A Editorial Caminho foi forçada a adiar a apresentação no Funchal do livro "Jardim, A Grande Fraude - uma radiografia da Madeira".

Porque será?

Tudo inocentes?

Vasco Pulido Valente, Público

Sócrates começou por jurar que não governaria Portugal com o FMI: porque "a agenda" do FMI implicaria uma "factura" pesada durante anos. Depois perguntou histericamente aos portugueses se queriam um governo com FMI ou sem FMI. E, uma vez posto em minoria na Assembleia, declarou que não tinha os poderes para negociar com o FMI, para anteontem com um prelúdio muito comovedor sobre "patriotismo", a cargo de Francisco Assis, pedir ajuda ao sobredito FMI. Mas não nos deu a confiança de esclarecer que espécie de "ajuda": se uma ajuda "intercalar" (que aparentemente não existe), se uma ajuda "mínima" (como quer Passos Coelho), ou se um "resgate" por inteiro, com as consequências do costume. O retrato do primeiro-ministro está todo neste deprimente espectáculo.

Só que o mais deprimente destes meses de Março e Abril não foi, como devia ser, o eng. Sócrates - foi a irrupção de génios pela televisão e pela imprensa que já sabiam a história inteira e se preparam agora para explicar por que razão o FMI era preciso (e, para a maior parte, ele era preciso há muito tempo) e o que pouco a pouco nos trouxera a este trágico sarilho. Com o seu arzinho presunçoso e professoral, economistas, financeiros, banqueiros, filósofos e arraia-miúda vieram revelar ao indígena atónito que nada, ou quase nada, se fizera de lógico e sensato de 1990-95 para cá. Não vale a pena repetir a ladainha. Ninguém duvida que o nosso enormíssimo buraco não se cavou num dia. Infelizmente, esta constatação pede uma pergunta óbvia: em que se ocupavam os sábios que hoje com tanto gosto nos predicam, enquanto os partidos (o PS e o PSD) arruinavam o país?

A ortodoxia em moda apela a que não se procurem "culpados". Mas, se, de facto, não se procurarem "culpados", para quem fica a culpa do tristíssimo fracasso do Portugal democrático? Para a má vontade de um Deus perverso? Para o destino? Ou para a insuficiência atávica do indígena? Era bom apurar isto, porque, se alguma destas três possibilidades (principalmente a última) ofende a delicadeza nacional, a única saída que nos resta é aceitar a ecuménica loucura dos portugueses. Quem se deixa chegar onde chegámos, levado por três dúzias de políticos, sempre reeleitos e até, às vezes, respeitados, não merece outro nome. E, pior ainda, quem desiste da verdade acaba inevitavelmente por desistir de si próprio.


Ministro sueco das Finanças: Governo português é responsável pela situação do país


O Governo português “tem uma grande responsabilidade” pela situação económica e financeira do país e colocou os parceiros europeus numa situação muito difícil por terem de decidir um programa de ajuda muito rapidamente e em condições tão complicadas, acusou o ministro sueco das Finanças, Anders Borg.

03 abril, 2011

Mais um velhaco


O administrador dos CTT Marcos Batista “não é licenciado, faltando várias cadeiras para terminar o curso”, confirmou o vice-presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) com a tutela dos assuntos académicos. Silva Ribeiro disse ainda que “a pessoa em causa não chegou a concluir cadeiras que lhe dariam equivalência à licenciatura no formato pós-Bolonha”.
O ISEG está a ponderar entregar o caso ao Ministério Público, alegando falsas declarações prestadas pelo administrador dos CTT Marcos Batista. Ao contrário do que é afirmado pelo administrador da empresa pública, Batista não entrou em contacto com os serviços académicos da instituição de ensino para obter informações sobre a conclusão da licenciatura.


O administrador dos CTT Marcos Batista, ex-sócio do secretário de Estado Paulo Campos e por este nomeado, suspendeu ontem o mandato depois de ser questionado pelo jornal i sobre as suas qualificações académicas. Marcos Batista terá adulterado as habilitações académicas, afirmando ser licenciado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, como consta no despacho de nomeação publicado em Diário da República. O curso, porém, não foi concluído, apurou o jornal i junto dos serviços daquela instituição de ensino, não tendo Marcos Batista completado as cadeiras suficientes para concluir uma licenciatura pós-Bolonha.


Retrato de um chefe


Vasco Pulido Valente, Público


O dr. Passos Coelho resolveu pôr na rua o governo de Sócrates. Não sem provocação. Mas toda a gente esperava que ele tivesse alguma coisa dentro da cabeça e a comunicasse ao país. Não comunicou nada. O que ele fez foi começar uma sucessão de gafes que revelam uma inquietante tendência para aumentar em quantidade e qualidade. Começou por ir a Bruxelas declarar que, em caso de aperto, não hesitaria em subir o IVA. Esta inesperada franqueza provocou, como é óbvio, um grande embaraço ao PSD e o habitual chorrilho de trapalhadas (apoios, desmentidos, desculpas) que inevitavelmente deixaram o país mais perplexo do que estava. Aliviando a sua pessoa de meia dúzia de asneiras sobre o IVA e o IRS (de resto, desnecessárias), Passos Coelho não pareceu perturbado e passou a tarefas de outra natureza.

A primeira consistiu em entregar à FENPROF a avaliação dos professores que tinha levado uma eternidade a negociar e acabara numa meia derrota. Não sei quantos votos o PSD ganhou com esta espécie de exercício eleitoral, mas ganhasse os que ganhasse, a operação foi sórdida. Veio a seguir a sugestão para privatizar a CGD e a confissão (que ninguém lhe pedira) de que estava disposto a governar com o FMI. No meio disto, prometia também um programa para Abril, fabricado (ou dirigido) pelo dr. Catroga. E, para ir abrindo o apetite à populaça, aprovou por unanimidade no PSD um documento em que definia "pilares" ("pilares"?) num calão indigno do 12.º ano, que não houve português que percebesse ou levasse a sério. De qualquer maneira, a unanimidade agradou a Passos Coelho, que desde pequeno não gosta de conflitos.

Esta propensão para a concórdia universal é especialmente visível no partido, a quem ele jurou não aprovar uma aliança pré-eleitoral com o CDS. Para as luminárias lá de casa, esse acto de loucura custaria ao PSD, pelo menos, 21 deputados. Com essas preciosas criaturas talvez custe a maioria (absoluta) ao centro-direita e uma instabilidade permanente ao país. Não importa. Passos Coelho não quer zaragatas. Os jornais garantem que ele até nem tenciona excluir das listas nenhuma das facções que, depois de Marques Mendes, tornaram o PSD num objecto de irrisão e desprezo; e se prepara mesmo para convidar "independentes" (um género zoológico muito comum em épocas de eleições). Passos Coelho nunca diz "não". Consta mesmo que desistiu de exigir uma auditoria às contas públicas portuguesas, porque o Presidente da República e o Presidente da Comissão Europeia não achavam bem. Portugal que vote na ignorância do enorme sarilho em que o meteram. "Sim, dr. Cavaco!", "Sim, dr. Barroso!". Pedro Passos Coelho é um chefe.


31 março, 2011

António Barreto: Crise política é “golpe” de Sócrates para se vitimizar


O sociólogo António Barreto afirmou que a demissão do Governo foi um “golpe” do primeiro-ministro José Sócrates para provocar eleições, vitimizar-se e que isso aumenta as dificuldades para Portugal se financiar nos mercados.

29 março, 2011

O rei das cambalhotas





Cavaco Silva não vai intervir na avaliação dos professores


Cavaco Silva prepara-se para promulgar a proposta da oposição que revoga o modelo de avaliação dos professores. O Presidente da República não irá atender ao pedido do governo e não irá enviar para o Tribunal Constitucional o diploma de revogação do modelo aprovado a semana passada pela Assembleia da República. Belém considera que o argumentário do Partido Socialista sobre a inconstitucionalidade da proposta da oposição não é juridicamente correcto.


Sem cabeça e sem coração


José Vítor Malheiros, Público

Alguém imagina Sócrates convidado para dar aulas numa universidade prestigiada?


Quando o PS decide escolher de novo José Sócrates para o cargo de secretário-geral por uma esmagadora maioria de 93 por cento - seria injusto chamar-lhe "venezuelana", porque Hugo Chávez fica-se por uns míseros 60 por cento - está a dizer-nos que não tem mais nenhuma ideia para propor aos portugueses que não sejam as que nos apresentou nos últimos seis anos e que não tem um desejo de nada diferente. E um partido sem ideias e sem desejo, sem cabeça e sem coração, está, se não morto, pelo menos em coma.

Percebe-se que Sócrates se recandidate ao cargo. O actual primeiro-ministro é um homem ambicioso, que não pode razoavelmente esperar fazer carreira em qualquer outro domínio que não seja o da política e esta é a última das últimas oportunidades para se manter no poder. Alguém imagina Sócrates convidado para dar aulas numa universidade prestigiada? A fazer o circuito internacional das conferências? A dirigir uma organização intergovernamental? Partilhando a sua visão na administração de uma fundação? Lançando-se numa carreira de ensaísta? Escritor? Não importa se as probabilidades de Sócrates vencer as próximas eleições são baixas ou altas: esta é a sua última oportunidade. E Sócrates, se tem a combatividade de um samurai, não tem a abnegação correspondente. É fácil imaginá-lo aos berros mas não a beber a cicuta e ainda menos a sair de cena sem espernear. Sócrates irá tentar a sua última oportunidade. Quem sabe? O PS é um dos partidos do "arco do poder" (o mal, tem eixo; o poder, arco) e a sua clientela, alargada pelos últimos anos de consulado e bem estimulada nestas últimas semanas de poder, pode ainda... Quem sabe?

Uma questão que é necessário colocar a um PS que não se cansa de acusar o PSD de colocar os interesses do partido à frente do país, é esta: 93,3 por cento do PS pensa realmente que Sócrates é a melhor solução para governar Portugal? Se é assim, é de esperar que, ganhe ou perca as eleições daqui a dois meses, o PS se mantenha sob a liderança do actual secretário-geral. Mas, se a perda de eleições motivar a queda de Sócrates, isso quererá dizer que, como todos suspeitamos, o PS apenas escolheu o líder que possuía a maior desfaçatez, na esperança de realizar uma campanha vitoriosa. Afinal, o homem já ganhou duas eleições... Quem sabe?

É claro que, apesar da esperança infundada dos socratistas, toda a gente sabe que Sócrates vai bater no fundo, com estrondo. Nessa altura, o PS vai experimentar um sobressalto cívico, talvez até republicano (não me atrevo a dizer socialista) e, das reservas das coortes do PS vai sair um candidato, talvez um candidato e meio (nunca dois, nunca dois... em Portugal não há tradição, estas coisas combinam-se, não é preciso discutirmos em público, como vendedeiras) que se disporá a assumir a liderança do PS durante a oposição, que em Portugal dá pelo nome de travessia do deserto devido à escassez de víveres que acompanha o estatuto.

Mas antes disso, naquele período de agitação que precede a indigitação do candidato a líder de um partido e que obedece a regras semelhantes às da procura da reencarnação do Dalai Lama, vamos ouvir nomes ("Nem sabia que ele era do PS..."), relembrar percursos ("Ah... foi ela que fez isso?"), comparar currículos ("Estudou mesmo numa universidade a sério?"), sondar reputações ("Dizem que até é honesto!"), avaliar atitudes ("Demitiu-se!?") e, em plena fase de candidaturas das pré-candidaturas, vamos descobrir que, numa gruta sob o Largo do Rato, existem homens e mulheres capazes de liderar o partido e de dirigir um Governo, competentes, dinâmicos e com visão, honrados e respeitados, com consciência social e capazes de dizer sustentabilidade sem gaguejar.

O que é pena é que tenham passado todos estes anos a jogar às cartas.

28 março, 2011

iPad2


Eu tinha vaticinado, já há muito, que o iPad tinha vindo para ficar e para revolucionar. Houve outros que na altura disseram que não. Pois atente-se na imagem para se perceber como é que foi a euforia no lançamento do iPad2 em Nova Iorque, no dia 25 de Março.
A Apple está em dificuldades para responder à procura do novo modelo do iPad. Em Portugal, muitas lojas viram esgotar o iPad 2 logo no primeiro dia. Em menos de três dias, os portugueses compraram todos os iPads 2 que vieram para o mercado nacional.