12 maio, 2004

Fronteiras

Nem sempre é fácil estabelecer fronteiras entre perspectivas e modos de ser e de estar...como: formal/informal, frio/quente, íntimo/distante, próximo/longínquo, etc, etc...
Por vezes, não é possível escolher um dos lados. Por isso, coabitam os dois.
É estranho, mas não temos que nos sentir, necessariamente, mal com isso.

09 maio, 2004

Mistérios

“Conseguiu desvendar o mistério das coisas.” São palavras de Ferreira de Castro sobre Almada Negreiros.
El alma de Almada el impar. Obra gráfica 1926-31” é o nome da exposição patente no palácio Galveias. A merecer uma visita.
O Luís Gaspar, um dos comissários da exposição, comentava: “ainda não veio cá ninguém da Câmara”. Um autêntico mistério - que nem o Almada desvendaria!

08 maio, 2004

What a wonderful world

Um outro olhar sobre o mundo ....e sobre a vida:

"I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself what a wonderful world.

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself what a wonderful world.

The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shaking hands saying how do you do
They're really saying I love you.

I hear babies crying, I watch them grow
They'll learn much more than I'll never know
And I think to myself what a wonderful world
Yes I think to myself what a wonderful world."
Louis Armstrong

07 maio, 2004

Adversidades

A vida, costuma dizer-se, por vezes, é madrasta. Presenteia-nos com coisas, nada boas, das quais não nos julgamos merecedores. Não compreendemos a razão de ser de tais “presentes”. Não aceitamos que tenhamos que ser nós “os eleitos” da pouca ou da menos boa sorte.
Por isso, a nossa revolta é imensa, do tamanho da nossa incompreensão. E é legítima a nossa indignação.
Ao longo desta semana convivi com adversidades de diferentes tipos. E não foi nada fácil lidar com isso. Porque as palavras, os gestos, as atitudes que consegui partilhar me pareceram infinitamente pouco. Que foram.

06 maio, 2004

Lições de vida

O ELO SOCIAL é uma Associação para a Integração e o Apoio de Deficientes Jovens e Adultos. Desenvolve um trabalho notável e presta alguns serviços.
Há já alguns anos que tenho vindo a prestar, em regime de voluntariado, apoio informático a esta instituição. É um trabalho que faço com muito gosto.
O ano passado foi a primeira vez que estive presente nos Jogos da Primavera. Hoje voltei a estar presente nesse evento que teve, desta vez, como lema “Rock in Elo”.
A participação e a presença são muito diversificadas: associações semelhantes que vêm de todo o país, escolas, forças sociais, instituições. Logo aí nos espanta o modo como uma instituição desta natureza mobiliza pessoas, e se relaciona com os que lhe são mais próximos. De tal modo que dei comigo a comentar para o Fróis: “As escolas nunca hão-se conseguir fazer nada com esta dimensão!”
Depois há uma atmosfera de festa que é contagiante. Há nos rostos daquelas pessoas, a maior parte das quais deficientes, uma alegria de vida absolutamente invejável.
Fico a olhá-los e penso: às vezes não é necessário muito para se ser feliz.
Fica o link para o endereço do Elo Social.

05 maio, 2004

Uma janela aberta

Lembrei-me, hoje, deste poema do Paul Éluard:

Une fenêtre ouverte

La mort n'est jamais complète,
il y a toujours puisque je le dis
puisque je l'affirme
au bout du chagrin
une fenêtre ouverte
une fenêtre éclairée.
Il y a toujours un rêve qui veille,
désir à combler,
faim à satisfaire,
un cœur généreux
une main tendue
une main ouverte
des yeux attentifs
une vie, la vie à se partager.

04 maio, 2004

Para a Vanda

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto."
Álvaro de Campos

Se fosse possível emoldurar-te com alguns adjectivos eram certamente estes que escolheria para ti: efémera, tímida, genuína e simples. São, certamente, suficientes.
Retenho, na noite da tua partida, a inocência e a simplicidade que tão bem se conjugavam na tua imagem.
Fica bem.

02 maio, 2004

O dia delas

Não podia deixar acabar este dia sem uma palavra para elas. Elas que são mães, elas que são mulheres.
E expressar todo a meu respeito e consideração por aquilo que, tão laboriosa e dedicadamente, só elas tão bem sabem fazer. Ainda bem.

Prazer e realidade

Bem... devo confessar que não tem havido literalmente tempo para "alimentar" o blog. Hoje, passei por aqui só para dizer que ainda estou vivo - e de que maneira! - e prometo voltar um dia destes com todo o tempo do mundo. Acreditem mesmo.
Gostava muito de continuar por aqui. Mas vou ter que zarpar para ir preparar uma reunião sobre - imaginem só - o combate ao insucesso escolar. Uma pessoa mete-se em cada uma!!!
Até breve. Eu volto.

27 abril, 2004

Webalbum

Hoje foi dia de começar a organizar o webalbum
Já estão disponíveis as primeiras fotografias. E, quem diria, comecei pelas oliveiras...
Nos próximos dias haverá mais...
Por isso, sigamos - não o cherne, como diria a Margarida Uva parafraseando o O'Neill - mas o link .

Sonhar

"Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida..."

António Gedeão

Sonhar é uma forma de pensar...

25 abril, 2004

O meu 25 de Abril


"Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua história. Não discutimos a Autoridade e o seu prestígio."
António de Oliveira Salazar

A notícia chegou já tarde, próxima daquela hora do crepúsculo em que o pôr-do-sol tinha por hábito acariciar o rio Geba, proporcionando-nos fins de tarde únicos, excessivamente esplendorosos: “tinha acontecido um golpe militar em Portugal e o governo tinha caído”.
O serviço militar tinha-me apanhado a meio de um atribulado curso de Filosofia e, numa gélida noite de Dezembro de 72, a notícia chegou abruptamente: mobilizado para a Guiné. Assim, no dia 25 de Abril de 74 eu não estava na cadeia, Manuel Alegre. Mas encontrava-me, certamente, no meu posto. Jabadá, algures no interior da Guiné, passou a ser um cárcere de uma outra natureza, a partir de Janeiro de 73.
Situada à beira do rio Geba, Jabadá era uma aldeia de tamanho médio. Na orla das tabancas, espalhavam-se, em espaços irregulares, os postos do aquartelamento. Era aí que vivíamos, com uma constante sensação de insegurança a escorrer-nos pelo corpo, pois sentíamos que a nossa vida se encontrava sobejamente desprotegida. E nem o invólucro criado pelas fiadas de arame farpado, que envolviam todo o perímetro do casario, atenuavam aquela sensação.

Naquela noite, cheguei junto do Silva, o capitão, e disse-lhe: “Não volto a sair para a mata. Para mim a guerra acabou.”
Naquele tempo, e com a nossa idade, não discutíamos Deus porque havia demasiadas coisas para viver, e ainda não tínhamos aprendido a ser ateus. Mas discutíamos, ao nosso modo, a Pátria e a Autoridade. Fomos apanhados, em plena flor da idade, por um sistema político que, para defender as então “colónias” portuguesas, enviava para África os seus jovens.
Tínhamos então 21/22 anos e nada havíamos feito para merecer tal castigo. A maior parte de nós possuía uma formação política absolutamente estéril. Pouco conseguíamos vislumbrar por detrás de siglas como MPLA, UNITA; PAIGC, etc. Mas, em matéria de Pátria, estávamos conversados: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Timor não nos diziam absolutamente nada. Não eram a nossa terra, não eram - isso tínhamos a certeza - a nossa Pátria. Por isso, não podíamos nem tínhamos que as defender. Sentíamos que não era legítimo hipotecar a nossa vida por algo que não nos pertencia.
Assim, cada passo que se dava no interior da mata era vivido como um autêntico jogo de roleta e representava um passo a menos no regresso a Lisboa - como o pôde constatar o Malheiros. Na mata, à nossa volta, reinava uma intranquilidade constante que só podia ser colmatada com a proximidade do aquartelamento, apesar de toda a insegurança que aí vigorava. Mesmo os bombardeamentos de bazooka e morteiro de que, por vezes, éramos vítimas durante a noite, não conseguiam roubar-nos essa nesga de segurança e aconchego. O arame farpado ou um abrigo não eram meros adornos.
Mas as ordens de operações impunham-nos o constante patrulhamento da mata, com incursões em locais distantes situados no interior da floresta - ora de dia, ora de noite, ora dia e noite. O Terreiro do Paço e Bissau comungavam um mesmo desígnio: “acabar com os turras”.
Rapidamente intuímos que a nossa maneira de discutir a Pátria e a Autoridade era permanecer o mais próximo possível do aquartelamento, esquecendo as ordens de operações. Não estávamos ali para apanhar turras; muito menos para ganhar uma guerra, para ganhar medalhas, ou para ganhar o que quer que fosse. Salvar a pele e regressar sãos a casa eram o mote do nosso quotidiano. Por isso, fazíamos tudo o que pudesse salvar-nos, principalmente através do boicote das missões de que éramos incumbidos. O Silva, que coabitava connosco, - formado e promovido num daqueles cursos de aviário, que serviam para formar capitães de modo célere - não imaginava o que se passava, tão ciente estava de que comandava uma companhia composta por leais e dedicados oficiais e praças. E Bissau e Lisboa ficavam demasiadamente longe, para saberem o que se passava no terreno.
Senti, nessa noite, que o Silva tinha deixado de ser comandante da companhia quando ousei dizer-lhe: “não volto a sair para a mata”. Ele olhou-me com os seus tão característicos olhos esbugalhados, fez aquele trejeito de cabeça que nós tão bem conhecíamos (e que nos levou a apelidá-lo de “Tolinhas”) e disparou energicamente: “Mas não podes fazer isso! Ainda não recebemos ordens para acabar com a guerra”. Retorqui-lhe, num tom muito peremptório: “Para mim a guerra acabou!” – e virei-lhe as costas.
No dia 25 de Abril de 74 eu estava em Jabadá, na Guiné. Nesse dia, o pouco que soubemos sobre o que estava a suceder em Portugal, foi suficientemente grande para intuirmos o que se seguia. Nos dias seguintes as notícias foram chegando a pouco e pouco, clarificando as indefinições iniciais. A Revolução dos Cravos tinha mudado radicalmente o regime político. De facto, a guerra tinha acabado. E eu não voltei a sair para a mata.
Tínhamos conseguido sobreviver. O tão desejado regresso a casa estava assegurado.

23 abril, 2004

O regresso ao Peter


A ideia foi da Cristina. Mas foi o Ricardo que a formalizou através de e-mail. Assim, no ano passado, ainda mal tinha desabrochado a primavera, chegava às nossas caixas de correio mais ou menos isto:

Asssunto: TGIF
Texto: Às sextas feiras, a partir das 18h30, no Peter – ali mesmo à beiro rio – para dois dedos de conversa, acompanhados por uma cerveja ou um gin.
Thanks God it’s Friday (TGIF). É uma americanice, mas é mesmo assim.

Levámos a sério o convite e lá nos fomos encontrando, ao longo do ano, numa espécie de ritual de fim de tarde das sextas-feiras, que, com a chegada do Inverno, se interrompeu…

Hoje, estava um desses fins de tarde de pedir Peter. Não resisti e fui até lá.
O gin e a tosta mista continuam esplêndidos.
Ali, perante aquela vastidão de horizonte, todos os pensamentos são altamente permitidos…

Aqui fica o convite: às sextas, a partir das 18h30, no Peter. Quem puder aparece...quem não puder... pode estar em pensamento...

Fotografias e webalbum



Estive, à noite, a organizar fotografias. A pouco e pouco a ideia foi crescendo: vou ter que fazer um webalbum. Que é, neste caso da fotografia, uma maneira simpática de partilha. Ficam, para aperitivo, dois exemplares, dos Jardins Garcia da Horta...



Quando estava a tentar descobrir a nome desta flor só me lembrava de glicínia. Porque será? Depois pensei: mas é uma flor típica da Madeira... Lá tive que ir à Internet para descobrir o nome e, claro, encontrei. É como costumo dizer: "se existe, está na Internet!"
Aqui fica então a estrelícia, acompanhada de uma outra árvore florida - cujo nome desconheço, mas que hei-de descobrir - que tão bela companhia faz à Torre Vasco da Gama.

22 abril, 2004

Alterações ou mudanças?

Comecei por escrever isto: "há coisas que estão a mudar". Depois parei, fiquei a olhar fixamente o verbo mudar e pensei: "Não, é melhor escrever: há coisas que estão a alterar"... Haverá, de facto, diferença entre mudar e alterar? Veremos.
Há coisas que estão a mudar, repito. Umas são menos visíveis que outras. Mas, nem por isso, menos importantes. Porque a visibilidade das coisas não é certamente um bom critério de medição...do seu valor.

Mas, é mais fácil falar de mudanças visíveis. Passei a fazer a pé uma parte do trajecto para a escola. Saio de casa, e vou, à beira rio, até ao metro na Gare do Oriente. Eu e a minha inseparável máquina fotográfica. Deixo aqui duas molduras do que hoje encontrei pelo caminho.
Àquela hora - seriam certamente umas 9 horas, mas não estou certo disso - o rio tinha uma serenidade altamente perigosa... À minha volta um enorme espaço vazio…Caminhava e não tinha pressa de chegar... Apetecia quedar-me ali eternamente...

Em relação à escola decidi (bem, não tenho a certeza se é uma decisão!) que vou passar a abandoná-la mais cedo. As 13h30 são o limite da minha permanência. Mas não é fácil fazer isso, como hoje se constatou...

E.. ainda a propósito de mudanças... também vou cortar o cabelo...


21 abril, 2004

Uma outra música

Nesta semana, que precede o dia 25 de Abril, resolvi pôr no intervalo das aulas uma outra música: Zeca Afonso e Adriano. Os alunos têm refilado...Mas também têm que se familiarizar com outros sons.
E hoje, durante um dos intervalos, ainda houve um bocadinho de Sérgio Godinho...

20 abril, 2004

Saudades de mim

"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim."

Mário de Sá-Carneiro

Dúvida

Organizei, há já algum tempo, um CD de música. Tem uma camélia na capa. Chamei-o música variada porque lá dentro há Zeca Afonso, Madredeus, Rui Veloso, Sérgio Godinho, música brasileira, sul-americana... Tem música e letras de que gosto muito, que me dizem muito. São um pedaço de mim.... E gosto que gostem do meu CD...
Hoje, dia 19 de Abril, segunda-feira, quando, no final da tarde, regressava a casa, houve músicas/letras do CD que ganharam uma nova dimensão.

O Sérgio Godinho dizia:
“Hoje é o primeiro dia
do resto da tua vida…”
E os Madredeus:
“Ai que ninguém volta
ao que já deixou…”

Cheguei a casa e senti uma imensa vontade de ir ver o rio. E fui, pois ele fica mesmo aqui à minha beira. Encontrei-o excessivamente nublado e pardo, como aqui se documenta. E pensei: é possível que tenha acabado a primavera?

19 abril, 2004

Pais e filhos

Estive a ler a entrevista que o Dani deu ao Expresso. Fi-lo não pelo Dani, de que mal me lembro, mas pelo Zé Carvalho, o pai, velho colega de curso e de outras andanças.
Diga-se que foi um texto que me incomodou. Ao lê-lo, pensei muitas vezes no Zé a na Luísa, nas alegrias e nas tristezas que aquele filho já lhes deu....

17 abril, 2004

Estou de volta

Cheguei, depois de um périplo por terras nacionais.
Viajei acalentado por sonhos, desejos e esperanças, que amenizaram estes dias primaveris. No regresso, tinha os plátanos da minha rua, que por sinal se chama Rua Ilha dos Amores, todos de verde cobertos.